sábado, 16 de julho de 2016

Olho no lance



Calma, não vou falar de futebol. Mas ver fotos de sacanagem na internet é como assistir à gravação de jogos de futebol de resultado conhecido. Só um pouco mais irritante.

Você já torceu para que o resultado do jogo reprisado fosse diferente? Pois é, eu faço isso, às vezes. É ridículo, eu sei, mas continuo torcendo para que algum idiota edite o jogo e ponha um gol que não aconteceu.

Fazer isso surfando por fotos de sacanagem é divertido. Espero encontrar no meio daquela miríade de bundas, bucetas e pintos maquiados uma só parte que pareça com um corpo humano normal. Bobagem!

Foto de sacanagem que é foto de sacanagem não tem buceta feia, nem bunda com celulite ou pinto pequeno. Odeio aqueles pintões humilhantes que me fazem sentir o Gulliver na segunda parte da história: todo mundo grandão, só você pequenininho.

Com mulher deve acontecer isso quando aparecem aquelas gostosonas lisinhas, douradinhas de sol, com peitões com os bicos lá em cima (dá até para pendurar a toalha) e mãos impecavelmente tratadas, com unhas pintadas pelos deuses.

Não tem dedo com bandaid nem cutícula mordida. Não, não tem arranhão na bunda ou peito desproporcional. Photoshop e estilista foram inventados para falsificar sas coisas (mulher de foto de sacanagem é coisa, certo?).

Mas eu vou além. Espero fervorosamente que um jogador perca a cabeça e enfie a mão no juiz vagabundo que não marcou pênalti e ainda deu cartão para o atacante que “simulou” a canelada. Com a canela doendo, o orgulho ferido e o pênalti não marcado, o soco é muito mais forte.

Nas fotos de sacanagem busco identificar a mulher dos meus sonhos. Normalmente, quando lembro do sonho, é merda. Por isso, falar da mulher dos sonhos é perigoso. Não sei qual é a mulher dos sonhos. Por isso mesmo procuro. Vai que eu a reconheço por aí!

Com certeza, não pode ser aquela gostosa de academia, certinha, perfeitinha, mais retocada que bochecha de noiva rica. Seria um pesadelo. Minha mulher dos sonhos não precisa ter unha encravada ou suja de graxa, mas seria uma dondoca irritante.  

Então, fico eu lá, virando, virando, virando até encontrar uma ou outra foto que provoca alguma emoção. No twitter aprendi a acompanhar mulheres que gostam de se exibir. É divertido e pode supreender, eu garanto.

Há garotas e garotos de programa que se exibem a custa de um dinheirinho. É uma espécie de strip tease, só que eletrônico. Você paga e ela ou ele fazem para você ver, muitas vezes a pedidos.

Há caras que exibem as esposas (ou parceiras, ou… sei lá) para os outros verem. É uma espécie de sessão “conheça meu troféu de golf”. Mostra a patroa de tudo quando é pose, na maior parte com muita sensualidade. Vez por outra aparece um pintão prá humilhar.

Há esposas (parceiras ou sei lá) que também gostam de mostrar seus bem dotados companheiros. Alguns de calcinha, outros sendo enrabados e muitos metendo nelas que é uma maravilha. Parece propaganda de Viagra.

E há aquelas gostosuras que se exibem porque gostam de se exibir. Para essas dou a maior atenção, feito vídeo de jogo que já passou. Não porque sejam repetições conhecidas, mas porque representam a esperança do encontro da mulher dos sonhos, ou do gol que não saiu.

Tem lá a foto do maior bucetão, mas eu noto a decoração dos pelinhos bem cortados, ou as mãos bem postas,  bonitas (ah, as mãos!) ou as unhas pintadas. Pintem de vermelho, minhas lindas, pintem de rosinha “meu hímen voltou”.

Me encantam também os cantinhos de rosto não identificado com um sorriso quase cortado ou lábios carnudos e convidativos. Uma orelhinha semi coberta por cabelos emaranhados ou um brinco delicado, quase indecente de lindo.

Não são fotos de catálogo. São fotos de mulheres normais, bonitas que gostam de ser admiradas. As exibicionistas são maravilhosas. Especialmente as exibicionistas bem comidas e com parceiros efetivos. Mostram porque gostam de mostrar.

E como toda a boa exibicionista, as minhas amigas de fotos do twitter esperam um curtir, um retwittar ou mesmo um comentariozinho.  Não canso de retribuir às expectativas delas. Quando me empolgam, ganha minhas palavrinhas. Nada de grosseria, Mando gracejos quase vitorianos.

Isso é muita sacanagem, eu sei. Mas o fato é que não encontrei outro jeito de identificar a procurada mulher dos sonhos. Porque a mulher dos meus sonhos enrubesceria diante de um suave galanteio. Feito o espectador que, de repente, é surpreendido na reprise por um lance que não aconteceu.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Marina

MARINA
- Oi, Carlos!
CARLOS
- Oi, Marina, tudo bem?
MARINA
- Tudo. Você pode conversar um pouco?
CARLOS
- Claro. Diga.
MARINA
- Bom, não sei muito como começar...
CARLOS
- Vai pelo começo, é a melhor maneira.
MARINA
(risos) - Você sabe que eu tenho conversado muito com a Clara sobre a literatura hot, né?
CARLOS
- Sim, ela me contou. Parece que a conversa tem sido muito boa.
MARINA
- É, a gente se identificou com uma porção coisas.
CARLOS
- É uma literatura quente mesmo, inflamável.
MARINA
- Você também gosta de ler esse tipo de literatura?
CARLOS
- Não, eu não li muita coisa do gênero.
MARINA
- Ah, então você não leu os livros realmente hot.
CARLOS
- Li pouco, você tem razão, preciso rever meus conceitos
MARINA
- Tem alguns de tirar o fôlego (rs)
CARLOS
- entendo... então?
MARINA
- Ah, Carlos, os livros aumentaram a identificação entre eu e a Clara. Fomos aprendendo a conversar sobre eles ... essa conversa foi ficando cada vez mais gostosa e reveladora, não sei se você está me acompanhando..
CARLOS
- Eu estou acompanhando, sim. Fiquei quieto para você escrever. A Clarinha me falou empolgada sobre isso. Começaram a rolar uns papos de fantasias, né?
MARINA
- Isso. Acho que foi porque, depois de muito tempo, nos encontramos pessoalmente e aproveitamos para botar a fofoca em dia. E a conversa dos livros evoluiu (rs)... Eu queria consultar você sem que a Clara soubesse.
CARLOS
- Tá, vamos ver se ajudo.
MARINA
- Então... a Clara é uma amiga muito especial e as nossas conversas foram parar em um universo tão excitante que precisamos dar um tempo para colocar as cabeças no lugar (risos)... E é disso que eu queria falar com você
CARLOS
- A Clara me falou a mesma coisa.
MARINA
- Você não fica incomodado?
CARLOS
- Não fico. Só não sei muito como opinar.
MARINA
- O Léo também sente esse estranhamento. Mas ele é mais quadrado que você.
CARLOS
- Não sei se eu sou tudo isso, mas a gente tenta...
MARINA
- Ela falou até que vocês já discutiram visitar um clube de swing pra ver e conhecer... CARLOS
- É verdade
MARINA
O Leo é muito cheio de grilos... Tem grilo até com brinquedinhos eróticos.
CARLOS
- Tem homens que se incomodam com a “concorrência” dos brinquedinhos
MARINA
- Você não, né?
CARLOS
- Não, mas você já sabe disso, porque a Clarinha já deve ter falado.
MARINA
- Sabe, Carlos, eu fiquei surpresa em saber que você gostava dessas brincadeiras... surpresa mesmo. Mudei meu conceito a seu respeito.
CARLOS
- Obrigado. Então, o que você precisa conversar comigo?
MARINA
- É que... bom... ah, você ficaria grilado se eu e o Leo convidássemos a Clara para sair a três?
CARLOS
- Upa! Agora quem ficou surpreso fui eu.
MARINA
(risos)... o Leo tem um lado safadinho... e eu acho que a Clara enturmaria com uma proposta dessas.
CARLOS
- Eu e a Clara já conversamos muito sobre isso. Mas tudo é muito difícil, dá medo... e se rolar ciúme depois? Como é que a gente fica? Essas coisas a gente tem se perguntado muito.
MARINA
- Ela me contou dessas dúvidas, e eu tenho também... o Leo nem consegue discutir isso, apesar de aceitar a idéia de transar a três, comigo e uma mulher.
CARLOS
- Fico meio dividido com essa conversa com você...
MARINA
- Como assim?
CARLOS
- É difícil explicar...
MARINA
- Ah, Carlos, pare com isso e fale logo... você está excitado, é isso? Pode falar, eu estou longe (risos)...não vou atacar você... pelo menos não por enquanto
CARLOS
- Eu fico feliz em saber que você se interessa por mim, mas acho que não é bem o caso...
MARINA
- Como assim? ... Carlos, você não vai me dizer que é viado...
CARLOS
(risos) De jeito nenhum... Não sou gay...
MARINA
- Então...
(silêncio)
MARINA
- Hei, dormiu (risos)
CARLOS
- Desculpe, estava ao telefone. Era o Leo.
MARINA
- O Leo? O meu Leo?
CARLOS
- Isso, o seu marido, o Leo.
MARINA
- Aconteceu alguma coisa?
(silêncio)
- Carlos, você ainda está aí?
- Carlos?
CARLOS
- Oi, Ma, é o Leo.
MARINA
- Leo? O que você está fazendo aí?
CARLOS
- Ma, era eu o tempo todo...
MARINA
- COMO ASSIM???
CARLOS
- Normalmente, quando falo que estava ao telefone com o Leo você sai do surto e retorna à realidade.
MARINA
- NÃO ESTOU ENTENDENDO.
CARLOS
- Má, o Carlos morreu... Faz mais de um ano... ele se matou...
MARINA
- Não faz isso comigo...
CARLOS
- Má, nós fomos juntos ao motel, eu, você, a Clara e o Leo, mas ele não aguentou a barra, saiu de carro e se atirou do penhasco na serrinha de São Sebastião...
MARINA
- Mas...
CARLOS
- Vem pra sala, vem... vamos conversar pessoalmente... a Clara também está aqui...

(FIM)